Artigo publicado na revista Violčo IntercČmbio, n.49, Sčo Paulo, 2001. Versčo em espanhol publicada no livro 'Abel Carlevaro - Un Nuevo Mundo en la Guitarra', de Alfredo Escande (Montevidéu: Aguilar, 2005).

 

A IMPORTŚNCIA DE ABEL CARLEVARO PARA O VIOLŐO

Daniel Wolff

 

Abel Carlevaro foi um dos maiores expoentes da didática violonística do século vinte. Nčo se entenda por esta afirmaćčo que ele era apenas um excelente professor de violčo, pois sua atuaćčo como intérprete e compositor é reconhecida internacionalmente. Porém, penso que o que o aspecto de sua produćčo que mais o destaca dentre outros excelentes violonistas e/ou compositores contemporČneos é justamente sua contribuićčo didática.

Ele pesquisou e racionalizou os diversos aspectos técnicos envolvidos na performance do violčo de forma a permitir aos estudantes do instrumento uma busca gradual e conscienciosa do aprimoramento mecČnico. Para tal fim, demonstrou e analisou cada elemento mecČnico separadamente em seu célebre livro Escuela de la Guitarra - Exposición de la Teoria Instrumental, complementado por exercícios específicos publicados em seus quatro Cuadernos de técnica.

Certamente, antes do trabalho de Carlevaro, existiam já diversos métodos e estudos dedicados ao desenvolvimento técnico do violonista. Porém, vemos aqui pela primeira vez uma explicaćčo lógica e detalhada, apresentando solućões claras para os mais variados problemas. Em épocas anteriores, cada estudante necessitava despender um longo período de tentativas e erros para encontrar os mesmos tipos de solućões que Carlevaro apresentou "de mčo beijada". Naturalmente, em muitos casos o estudante nčo chegava sequer a obter tais solućões, e desenvolvia portanto uma técnica defeituosa e problemática.

Outra importante inovaćčo de Carlevaro é a forma como os exercícios contidos nos Cuadernos foram elaborados. Diferentemente de seus predecessores, ele nčo elaborou pequenos trechos musicais que faziam uso constante de determinada dificuldade técnica. Em vez disto, criou exercícios contendo unicamente as dificuldades técnicas propriamente ditas, permitindo ao aluno enfocar o problema isoladamente, resultando em um progresso mais rápido e eficiente. Ou seja, a fim de otimizar o desenvolvimento do aluno, separa-se o estudo da técnica do estudo das obras musicais, da mesma forma que um jogador de futebol faz exercícios de musculaćčo para possuir um desenvolvimento muscular adequado no momento de treinar diretamente com a bola. Vźm ą mente aqui os exercícios para piano criados por Alfred Cortot, que seguem um princípio semelhante.

Finalmente, cabe destacar que a chamada "Escola de Carlevaro" nčo se resume meramente ąs solućões apresentadas por ele em seus livros. Penso ser de suma importČncia também compreender seu processo de raciocínio para aplica-lo em outras situaćões. Elucido este aspecto através de minha experiźncia pessoal.

Tive a felicidade de estudar com Carlevaro por um período de trźs anos, na época em que residi em Montevidéu. Em diversas ocasiões, após longos períodos de raciocínio e trabalho prático, cheguei a conclusões diferentes das obtidas por Carlevaro para determinados problemas mecČnicos. Invariavelmente, Carlevaro nčo se opunha a que eu utilizasse procedimentos técnicos diferentes dos apresentados por ele. Ao contrário, sempre me encorajou a buscar as melhores solućões para meu caso em particular, desde que fossem resultantes de profunda reflexčo teórica, aliada ą subsequente comprovaćčo prática. Ou seja, a atitude de Carlevaro nčo era dogmática, como quem diz: "Tens que fazer exatamente o que eu faćo; as solućões que encontrei para os problemas técnicos sčo universais e imutáveis". Longe disto, o que ele buscava como didata era demonstrar ao aluno um método de pesquisa e busca de aprimoramento técnico baseado na auto observaćčo e no conhecimento dos músculos do corpo humano. Esta foi, talvez, sua maior contribuićčo para o estudo e didática do violčo.

 

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